Divino Saudosismo: Valéria!

por Marccelus Bragg.

Desde que foi inaugurado à poucos dias, o novo Teatro da Boate Tropical vem disponibilizando uma elite transformista que bem pouco se apresentava por lá. Estamos falando desta programação que leva o nome de Sextas Especiais. Ficou definido pelo proprietário Marcos Mello, ele mesmo um dos artistas das Sextas-feiras, que semana sim - semana não, a veteraníssima no bom sentido - pela experiência da bagagem artística - da qual é dona, a Divina Valéria, vai estar se apresentando na Nova Boate Tropical. Uma semana é a Divina Valéria e na outra quem se apresenta é a Baga, a personagem Bagageryer Spielberg do nosso criativo André Luis Silva.

A Divina Valéria bem que se esforça. Mas infelizmente e não por ela, o público jovem da Boate Tropical não corresponde e termina por sua apresentação não render. Talvez num outro ambiente, mais intimista e com os recursos noir a Divina possa ter a resposta certa e à altura do seu talento. As gerações gays de agora, alheia ao "Divino Saudosismo" de uma Valéria não se compromete sequer com a educação: poucos e forçados aplausos, gritaria e muita conversa, dispersão total. Nem parecia que a Valéria transitava entre as mesas e de microfone em punho resistia "bicha não atrapalha, a cantora aqui sou eu!".

Para uma minoria que respeita o trabalho da artista e que foi para a boate numa madrugada fria, com o Show à começar por volta das 3 da madrugada, o somatório é único: a Divina Valéria vai bem mas a platéia vai mal. Muitos não percebem que ter preconceito contra a idade, contra o fato da travesti cantar, contra a natureza da apresentação rica em elementos internacionais só revela o que todos imaginam, não é tão fácil desintoxicar as pessoas da mesmice, transfobia e da mediocridade cultural.

Jane de Castro, Lennie Dale e a Divina Valéria

De certo mesmo uma coisa, a Divina Valéria deu o seu recado, se apresentou e brilhou para os que são da luz. Falou coisas interessantes, cantou alguns sucessos do Rei Roberto Carlos, à quem conhece de longas datas e no final, definitivamente, de estola negra com penas de faisão real, saiu de cena agradecendo ao público.

Valéria hoje e no auge, em 1970 .

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Para geração mais nova que não a conhece. A Divina Valéria começou sua carreira artística em 1964, com o show Les Girls na boate Stop, no Rio de Janeiro. Com voz marcante e grande presença de palco, logo ficou famosa no Brasil e no exterior - cantou na Europa, América Latina e Ásia. Também já foi dirigida por nomes como Augusto César Vanucci, Ronaldo Bôscoli e Miéle. No palco, ela, que se iniciou no meio artístico ao lado de Rogéria, no espetáculo Les girls, sempre se superou. Só para lembrar, Valéria foi, por exemplo, uma das personagens mais famosas da folia baiana dos anos 70. Era figura aguardada do trio elétrico do Bloco Jacu. Como cantora Valéria sempre se identificou com as canções de Vinícius de Moraes, Tom Jobim, João Bosco, Aldir Blanc, Maria Bethânia e muitos outros baluartes da cultura nacional. Mas também, já que vive em Paris, presta homenagem à Edith Piaf com um pot-pourri da cantora francesa. De si mesma a travesti fala: "Nasci artista, posso subir no palco sozinha e colocar a platéia para me aplaudir de pé", vangloria-se, acostumada a receber elogios desde muito tempo atrás, quando conheceu a fama nos espetáculos capitaneados por Agildo Ribeiro, Miele, Aracy de Almeida, Peri Ribeiro e Bibi Ferreira. Na França é por demais conhecida, onde estrelou shows no Carrossel e no antológico Olympia de Paris. Ao longo da carreira de pouca purpurina e muito suor, ela conheceu e ficou amiga de nomes de muito peso da high society brasileira e internacional. Basta uma espiadela no álbum de fotos para ver estampados sorrisos de Charles Aznavour, Claudia Cardinale, Pierre Cardin, Fernanda Montenegro, Arlete Salles, Bibi Ferreira... Isso sem falar nos políticos para quem cantou. Vejam Valéria assim: A artista. Acostumada ao glamour dos palcos europeus, onde vive há quase duas décadas, a famosa transformista Valéria não desce do salto nem por um segundo. Nem mesmo sob o sol escaldante de Salvador, local que escolheu para passar férias e matar saudades, após um longo período de ausência.

 

A Valéria, o ícone transexual Coccinelle e Rogéria.

 

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